08 agosto, 2013

Em defesa da vida



Desconheço a autoria da imagem
 Defendo a alegria de sexta-feira mesmo sabendo que a segunda-feira preguiçosa está quase chegando. Ainda assim, saio em defesa da esperança de dias melhores. 

Defendo a diversidade de ser eu, tu, ele, nós, vós, elas seja na raça, credo, cor e no amor. Cada um que siga o seu destino. Cada um que faça a sua história.

Defendo ser forte, fraca, vulnerável, qualquer outra coisa da série “sou”, sem inventar, pensar, medir ou retrair. Defendo a autenticidade. 

Eu defendo o livre arbítrio, portanto é permitido quebrar a cara, as regras e voltar se quiser, com o joelho roxo e o coração esfolado. Defendo porque cada um tem o direito de produzir suas próprias experiências.

Defendo o direito de ser dolorosamente humano, deliciosamente sonhador, intempestivamente corajoso. Defendo para afastar o ranço da obviedade. 

Defendo o choro quando ele for necessário e o riso quando for indispensável, porque todos possuem o direito de atolar o rosto nas tristezas, para sair com uma alegria característica da superação.

Defendo a vida como única propriedade que temos e o mais que surgir pelo caminho, são coisas sortidas, avulsas e provisórias, inclusive o amor. Então, é preciso viver mesmo denso ou delicado. Viver enquanto é tempo.

Defendo a obrigatoriedade de fazer coisas banais. Lavar louça após o jantar de comemoração, sem a tristeza de estragar as unhas. Acordar cedinho para ver o céu sem resmungar pela hora. Tomar banho, cantando desafinado, sem querer alcançar os acordes musicais de um tenor de sucesso.

Defendo a exclusividade de todos os ciclos, da fartura de felicidade a escassez de motivos. Das sombras noturnas à claridade dos dias.

Defendo a vida coletiva, a interação e a permissividade de momentos de reclusão como necessários para reabastecer a alma.

Defendo os sentimentos verdadeiros e a valentia para divulgá-los. A coragem para afastar o medo. A bondade para estender a mão. A humildade para perdoar. A infinita capacidade para recomeçar. Defendo a insistência. A tolerância e o companheirismo. 

Defendo colher girassóis à tardinha. Pintar o dia mais cinzento. Bordar ternura nas palavras mais ásperas. Celebrar a gratuidade da natureza. Cabular as mágoas. Aceitar os abraços. Dar à mão a palmatória para mudar de rota. Virar o disco.

Defendo a delicadeza das mãos dadas. A gentileza das esperas. Defendo o novo jeito de viver sem o velho manual rígido que nos obriga a fazer coisas sem sentido

Defendo a liberdade e o calor mais bonito do encontro humano. Defendo e inauguro essas anotações.

Ita Portugal

30 julho, 2013

Tanto faz




Tanto faz se é noite ou dia, se é tarde ou cedo, se é inverno ou verão. Tanto faz se é quente ou frio, outono ou primavera.


Tanto faz a lua ou as estrelas. A brisa ou a tempestade. O escuro ou claridade. A chuva ou o sol.


Tanto faz o dia, tanto faz a hora, tanto faz o silêncio ou barulho. Tanto faz eu ou o breu. A ausência ou presença. A música ou a dança. O certo ou duvidoso. O sim ou não, tanto faz.


Tanto faz o riso ou o choro. A dor ou alegria.

Tanto faz se a saudade está de partida ou chegada.

 Sem você, tanto faz.

Ita Portugal
Desconheço a autoria da imagem

 

22 julho, 2013

Proibido lembrar






Quando eu era pequena, vivia na ponta dos pés espiando e desejando habitar no mundo dos adultos. Na minha incorrigível ideia, adultos sabiam das coisas. Inventavam outras.



Então, cresci. Aprendi tudo dos adultos. Aprendi o que desejava e o que nunca quis. E repeti as lições. Adultos franzem a testa. Criam rugas. Andam apressados. Demoram sorrir. Trabalham o tempo todo. Compram muitas coisas. Guardam em armários. Possuem desejos estranhos. Fazem coisas contraditórias. Engordam. Ficam zangados.



Adultos possuem problemas reais e imaginários. Tomam remédios sem parar e nunca melhoram. Adultos fazem regras e desobedecem as leis.



Guardam dinheiro. Guardam mágoas. Conservam coisas, descartam pessoas.



Adultos são cheios de dúvidas. Complicam a vida. Fazem perguntas e não encontram respostas.



Adultos brigam por seus dilemas. Aventuram-se pelo conforto. Adultos desamparam quem precisa. Desatam laços. Fazem nós nas situações. Querem ultrapassar limites. Cometem loucuras sem motivos. Falam duramente. Ferem sem necessidade. Adultos perdem o juízo, a calma, a alma.



Adultos colecionam medos. Competem inutilmente. Estudam fórmulas, teorias, conceitos, regras e nunca usam.



Adultos ficam tristes por qualquer coisa. Preocupam-se a toa. Choram sem razão. Entopem-se de felicidade provisória. Desiludem-se. Não se entendem. Amam por obrigação. Esquecem por suposições. Machucam por ilusões. Passam adiante as responsabilidades. Esquecem das flores. Afugentam os pássaros. Resumem os carinhos. Dispensam a alegria.



Com os adultos a folia é silenciosa, os palhaços ficam sérios e o circo dorme.



Adultos escolhem pelos olhos e condenam pelo coração. São coisas que aprendi e quero esquecer.





18 julho, 2013

Tempo de alegria





Eu sou, sem morrer no acaso, sem fazer cerimônia, sem dormir no ponto, sem esquecer as dores. Eu sou, e antes de pertencer aos conceitos, às regras e situações, sou da minha investigação particular, sou do meu tempo. Sou do ócio, da preguiça e do prazer pelo nada. Sou também da pressa pelo afeto. Do silêncio que reluta em existir. Sou dos outros quando quero e geralmente na hora errada, sou de mim mesma por necessidade da solidão.


Sou dos tempos idos. Do que é relevante, mesmo sendo o amor. Sou de outrora onde a saudade era apenas uma lembrança bonita do passado. E desse tempo saudoso eu sou dos baianos e novos caetanos. Sou do violão afinado. Notícias de liberdade. Sou do tempo em que ser maluco era beleza. Do sol dourado e das coisas do meu país. Sou do Belchior aqui. Sou da voz suave de Nara Leão, Odara, da sorte. Descompostura talentosa de Rita Lee.


Sou de concordar com Almir Sater de que é preciso amor pra poder pulsar, é preciso chuva para florir. Sou Caymmi em sua rede preguiçosa estudando o mar. Sou Toquinho desenhando o mundo em uma folha de papel. Sou Cazuza irreverente, Sou codinome beija-flor. Sou cabeleira e canção do Lulu Santos. Sou a Ópera do Malandro em cartaz. Sou dos mutantes de batas coloridas. Sou a percussão da Timbalada. Sou todas as raças. Sou Tribalistas, Olodum, procissão na avenida principal. Sou de tentar quantas vezes meu fôlego aguentar. Sou de acreditar. Sou da fé no extraordinário. Sou do coração amolecido. Sou do trabalho e da não acomodação. Sou de achar que o homem ainda não tem jeito. Sou das tentativas. Da soleira da porta, cumprimentando os vizinhos e desejar dias melhores. Sou de deitar na relva para ver a lua dourada como ela só.


Sou de dizer não a ser mero expectador da história. Sou de gostar de quem pouco fala, mas muito realiza. Sou de viajar por aí. Sou do Rio a São Paulo, de Brasília a Salvador, a arquitetura, beleza e a generosidade do atlântico que me deu a senha privilegiada de viver aqui. Sou pela consciência, pelo respeito, pela vida. Sou das mãos dadas em torno do homem. Sou do saldo positivo. Sou de trocar o asfalto pelo campo para ouvir o cantar dos pássaros. Sim, eu sou do mato por natureza. Sou da banalidade pela extrema necessidade de desafogar o peso das culpas do mundo moderno.


Sou da floração de primavera. Da aurora tropical. Sou mais de andar a pé do que ônibus lotado. Sou da alma habitada de simplicidade no lugar de espírito empoeirado de mágoas.


Eu sou do mundo e principalmente do meu mundo habitado pela alegria mesmo que passageira. Sou dos atalhos por pressa, sou da ventania por impaciência. Sou do mato por natureza. Sou da banalidade pela extrema necessidade de desafogar as culpas.



Sou de chorar, de sorrir, de cantar o meu canto silencioso e desafinado em qualquer lugar. Sou de Rider. Sair à francesa, administrar a minha liberdade. Sou da nova. Sou de bossa nova na veia. Sou do fone de ouvido no bidê. De não restringir minhas vontades. Sou das campanhas de paz. Sou dos bailes da vida. Sempre fui assim. Sou de caminhar firme. Sou de tocar. Sou de viver. Sou de dispensar controle remoto por causa de um abraço.


Sou de vinte segundos de modernidade e uma eternidade dos velhos tempos. Eu sou porque eu sei que o mundo era melhor no tempo em que eu usava franjas, pulava o muro, brincava com as coisas da vida e tinha medo de lobisomem. Sou do afeto que me destinei. Do meu cotidiano. Sou do dia atarefado. Da noite escura. Do infinito do mar.


Sou da ilusão. Das confusas idas e vindas. Da insistência pela história. Sou de acreditar. De me perder nos romances. De entregas e depois arrependimentos. Sou da saudade dolorida. Das esperas angustiantes.


Sou da minha vasta imaginação. Da sobrevivência. Das tristezas ocasionais. Das perguntas sem respostas. Das respostas sem perguntas.


Sou dos planos sem motivos. Sou de tudo e às vezes do nada. Da fuga por medo. Da razão por obrigação. Da reza por devoção. Da fé por oração. Sou do que valeu a pena. De momentos eternos. Das lembranças. Sou sem vergonha de ser.

  Eu sou porque sei lá, Deus decidiu que eu fosse assim.

Ita Portugal





16 junho, 2013

Sábado


                                                       Desconheço a autoria da imagem
Todo sábado é a mesma coisa. Sentada no velho sofá da sala, com um vestidinho florido, descalça, cabelo preso, desbanco a ilusão. Honestamente tudo parece combinar com a apatia dos finais de semana. Nem penso duas vezes e capturo a premeditada solidão e sem nenhum animo folheio as revistas de moda.

Feito bolacha água e sal, fico entre fazer as unhas pra começar a semana de bom humor e passar aquele novo esfoliante na pele que promete uma cara mais saudável na segunda-feira.

Nesse momento sou a extensão de minha preguiça. Alias, da apatia e nem adianta mencionar meu nome para fazer lavar a louça, arrumar o cabelo e sair para balada. Prefiro ficar por aqui entre um cochilo de saudade e um desânimo que não convoca e nem intimida o meu olhar encolhido nas almofadas amarelas do sofá.

Ainda não é fim de noite, mas o meu desconforto emocional anuncia que passarei inúmeras horas com réstias de solidão. É o carma do sábado de unhas feitas, cabelo escovado, pagamento de contas atrasadas, sorvete na esquina, revistas espalhadas pelo chão e um monte de planos desorganizados na cabeça.

Uma agonia. Um vazio. Uma insistente troca de canais da TV, para substituir o desejo de sair do próprio corpo só para xeretar escondida, o espaço onde você está. Vira e mexe pego o telefone como se fosse um brinquedo.

Procuro motivos, crio um texto explicativo para falar da saudade. Penso melhor, apago isso da mente e o sábado continua o seu trajeto. Fico num desassossego quando descubro que dentro de mim teu lugar é sagrado e garante uma sobrevivência eterna, embora minha boca insista no nunca mais. Sinceramente, acho isso uma porcaria e nem sei se penso assim sempre ou se é apenas um sintoma do sábado.

Poxa vida, foram muitos esforços em trocado do nada, aliás, em troca do sentimento de pertença, sem você me pertencer.

Penso em todos os sábados passados e digo baixinho que ainda não me entendi, mas acho um charme ser estranha, confusa, indefinida, incompleta dentro do caos, procurando os monossílabos e bons motivos para viver os folclóricos sonhos de felicidade.

É sábado. Um bom dia para remoer as lembranças. Amanhã, tudo volta ao normal.
Ita Portugal









09 junho, 2013

Função do namorado



E para que servem os namorados se não for para sentir-se dono dos nossos afetos nem que sejam os dos finais de semana. Servem também para pensar que são os melhores do mundo mesmo esquecendo todas aquelas porcarias de datas que a gente tanto acha importante e no final é só mais um dia normal.

 Para que servem os namorados se não for para dizer a um punhado de garotas que existe uma capaz de virar a sua cabeça, mesmo que naquela noite no bar ele tenha olhado de soslaio para a loira longilínea que passou entre as mesas.

 Para que serve um namorado? Para dizer volto já e deixar a gente roendo as unhas aflitas, quando ele apenas esqueceu o que prometeu.

 Para que serve um namorado, se não for para trazer o ingresso do show mais esperado do ano, sem antes reclamar dizendo à roupa que não deveremos ir.

Para que serve um namorado, se não for para reclamar da quantidade de malas que fizemos apenas para dois dias no litoral. Um namorado serve também para a gente ter certeza de que está tentando ser feliz mesmo com a indisciplina do amor e a surdez do interlocutor que não presta atenção nos nossos sintomas e teimar em não escutar a nossa boa e entusiasmada intenção de fazer dele o homem de nossa vida, mesmo que por alguns segundos. Um namorado serve também para viver uma cena inteira de romance, chocolate e edredons. Serve para tagarelar nos nossos hemisférios e quase no final do dia conjugar o amor. 

Talvez sirva para alguma coisa bonita que eu não sei definir.

Ita Portugal





25 maio, 2013

Declaração


Desconheço a autoria da imagem

Eu sou, sem morrer no acaso, sem fazer cerimônia, sem dormir no ponto, sem esquecer as dores.


Eu sou, e antes de pertencer aos conceitos, às regras e situações, sou da minha investigação particular, sou do meu tempo. Sou do ócio, da preguiça e do prazer pelo nada. Sou também da pressa pelo afeto. Do silêncio que reluta em existir. Sou dos outros quando quero e geralmente na hora errada,, sou de mim mesma por necessidade da solidão.


Eu sou do mundo e principalmente do meu mundo habitado pela alegria mesmo que passageira. Sou dos atalhos por pressa, sou da ventania por impaciência. Sou do mato por natureza. Sou da banalidade pela extrema necessidade de desafogar as culpas.


Sou do afeto que me destinei. Do meu cotidiano. Sou do dia atarefado. Da noite escura. Do infinito do mar.

Sou da ilusão. Das confusas idas e vindas. Da insistência pela história. Sou de acreditar. De me perder nos romances. De entregas e depois arrependimentos. Sou da saudade dolorida. Das esperas angustiantes.

Sou da minha vasta imaginação. Da sobrevivência. Das tristezas ocasionais. Das perguntas sem respostas. Das respostas sem perguntas.


Sou dos planos sem motivos. Sou de tudo e às vezes do nada. Da fuga por medo. Da razão por obrigação. Da reza por devoção. Da fé por oração.


Sou do que valeu a pena. De momentos eternos. Das lembranças. Sou sem vergonha de ser.
Ita Portugal